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Zé Coco do Riachão

 

 

 O mundo da viola com certeza deve muito a Zé Coco do Riachão. Ele é uma lenda viva. De cada 10 violeiros, onze o apontam como o mais importante. Ele está para os violeiros assim como Hendrix está para os guitarristas. Com 85 anos de idade, pode ser considerado um mestre dos toques e da construção do instrumento. Lançou três LPs e representa a música pura da roça, nos leva ao campo com suas composições e maneira de executá-las, "aprendi a ouvir os sons que se escondem em cada pedaço de folha, em cada centímetro de chão das Minas Gerais". Nascido em 1912, em Brasília de Minas (MG), Zé Coco aprendeu a tocar com seu pai, que também construía violas. Quando pequeno, jâ brincava de montar instrumentos em madeiras.

Um dia, seu pai estava construindo uma viola, encordoou-a e saiu para guardar as ferramentas. Então, o menino de sete ou oito anos pensou: "nem que eu apanhe, vou pegar essa viola e tocar aquela música que meu pai tocou". O pai ouviu e voltou correndo, perguntando : "quem tocou a viola?". Mesmo assustado, o filho falou que tinha sido ele. Então, o velho pediu para ele tocar de novo e acabou dando o instrumento de presente para Zé Coco.


Na sua juventude participava de desafios em que a audiência apostava dinheiro no seu competidor preferido, como se fosse um jogo. Numa dessas "brigas de viola" venceu Novato Preto, considerado, até então, o "feiticeiro rei dos violeiros". Hoje a briga de Zé Coco é com a sua idade. Ele gostaria de fazer mais shows para mostrar o que o sertão tem de bom.Atualmente, o músico usa uma viola queluz, construída por ele mesmo, com afinação oitavada.

Mas não pense que é a viola que ele domina. Nos três LPs que gravou, toca caixa, sanfona, rabeca, entre outros instrumentos, mas ficou mais famoso como artesão e violeiro. O disco que ele mais gosta, "porque saiu do jeitinho que eu queria e não tem gravadora no meio", chama-se vôo das Garças, de 1987. O famoso crítico de música brasileira, José Ramos Tinhorão, afirma que "quem um dia se deleitou com a festa `banjistica' do som country do LP americano Dueling Banjos, lançado pela WEA em 1978, na certa sentirá um frissom ao descobrir a extraordinária semelhança de efeitos da música dos caipiras do sul dos Estados Unidos com a viola de Zé Coco".

Zé Coco Do Riachão

A morte de Zé Côco do Riachão, mestre da música caipira brasileira, no último domingo 21/06/98 em Montes Claros (MG), não provocou a barulhenta comoção que se viu na morte dos cantores Leandro e João Paulo, representantes da atual música sertaneja. Deixou, no entanto, um grande desconsolo na alma de quem conhece a importância de sua música ou daqueles que nela se firmam como referência de uma brasilidade resistente aos atropelos do Brasil urbano e moderno.

Fenômeno da cultura popular, Zé Côco foi admirado como um virtuose da viola e da rabeca (violino caipira). Ele dominava uma técnica de execução rara, que lhe permitia fazer solo e acompanhamentos ao mesmo tempo. Apesar de não ter tido nenhuma "leitura", nem das palavras nem de música, compôs em vários gêneros musicais, revelando seu talento genuíno e sua sensibilidade apurada. Fez lundus, mazurcas, dobrados, guaianos, corta-jacas, calangos e maxixes. Além disso, Zé Côco sabia tocar sanfona, violão, cavaquinho, caixa de folia e pandeiro. Sem ter tido professor, ensinou muita gente a tocar viola.

Foi também luthier (artesão de instrumentos musicais) e trabalhou como marceneiro, ferreiro, sapateiro, fazedor de cancelas, de engenho, de carro-de-boi, roda de ralar mandioca. Disso tudo, o que mais lhe dava alegria era tocar nas festas de Folia de Reis, que acontece todo mês de janeiro pelo país. Como costumava dizer, sua dedicação à Folia não era questão de profissão nem de promessa. Provavelmente era de fé, porque Zé Côco ou José dos Reis Barbosa dos Santos nasceu no mês da festa em 1912, no Riachão, lugarejo da zona rural de Brasília de Minas, no sertão mineiro. Descoberto pelo repentista e pesquisador de cultura popular Téo Azevedo, quando já beirava os 70 anos de idade, Zé Côco gravou apenas três discos: "Brasil Puro", em 80, "Zé Côco do Riachão", em 81, e "Vôo das Garças", em 87. Muitas de suas peças musicais se perderam sem gravação.

No início deste ano, em São Paulo, Zé Côco foi a atração do Festival de Violeiros no Sesc Pompéia. O músico, que estava hospitalizado havia um mês, não conseguiu superar as complicações de um derrame e morreu aos 86 anos. Ele, que foi chamado "Beethoven do sertão" por uma equipe de reportagem da TV alemã, pensava que com sua música iria ganhar dinheiro para comprar uma fazenda. Que nada, Zé Côco morreu pobre. Mas deixou como herança um patrimônio cultural inestimável e um lote de mil discos, de quando converteu seu terceiro LP, "Vôo das Garças", em CD. Como não conseguiu vendê-los, eles estão encaixotados na casa de sua filha, Luisa Soares, em Montes Claros, à espera de quem quiser preservar o que restou do mestre.