Por Roberto Corrêa
Caracteristicas da viola
A viola é um instrumento bem menor que o violão, com a cintura mais acentuada, e encordoado de maneira diferente. Ela possui dez cordas, agrupadas duas a duas, sendo algumas de aço e outras, revestidas de metal. A disposição das cordas, começando de baixo para cima é: os dois primeiros pares afinados em uníssono; e os demais, afinados em oitavas.
Os nomes dados as cordas são de origem portuguesa, existindo, no entanto, muita contradição nas informações prestadas pelos violeiros, ou seja, a mesma corda recebendo vários nomes diferentes. Alguns violeiros concordam em geral com os seguintes nomes: prima e contra Prima ou primas - requinta e contra-requinta ou segundas - turina e contra-turina - toeira e contra-toeira - canotilho e contra-canotilho. Para o terceiro par encontramos ainda o nome verdegal, quando é usada linha de pesca no lugar da corda de aço.
As violas, geralmente, são feitas artesanalmente, e o tempo mínimo para se fazer uma viola é de dez dias. 0 conhecido artesão Zé Côco do Riachão, um dos raros "fabricadores" de violas e rabecas, utiliza uma cola feita de banana do mato, também conhecida por sumaré.
No tampo, ele usa a madeira emburana de espinho; o braço é feito de cedro; o espelho, cravelhas e ornamentos de caviúna (candeia); e a lateral feita de pinho. Entretanto, na maioria das violas encontradas, a madeira utilizada para o tampo, foi o pinho que, de acordo com os violeiros, é a de melhor sonoridade
0 violeiro costuma dar à viola, os mais variados nomes, assim temos a viola caipira, a viola cabocla, a viola sertaneja, a viola de pinho, a viola de dez cordas, todas se referindo ao mesmo instrumento. A viola com dez trastos é denominada também de meia-regra, e a com trastos até na boca, de regra-inteira.
No litoral paulista, foram encontradas, violas com sete cordas, (dois pares e três singelas), nove cordas (quatro pares e uma singela), e dez cordas (cinco pares), todas mantendo as cinco ordens de cordas. É interessante observar que, numa das afinações da viola de sete cordas, o quinto par foi afinado em intervalo de quinta, e o quarto, em uníssono.
O desaparecimento dos violeiros
A viola, presente na grande maioria das nossas tradições culturais, foi sendo aos poucos ignorada e relegada a um plano secundário. Com o progresso, as gerações foram ficando cada vez mais defasadas culturalmente, e isto contribuiu de maneira significativa, para que houvesse uma interrupção no processo de transmissão da arte da viola caipira.
Este processo de aprendizado sempre se deu, com raras exceções, de pais para filhos. Antigamente, os violeiros eram pessoas de destaque na comunidade, suas funções e cantorias eram grandemente celebrizadas, e isto despertava e motivava o interesse de seus filhos e pessoas próximas, a aprenderem os segredos e as sutilezas da viola caipira.
A revolução dos meios de comunicação, e também o êxodo rural influíram profundamente na quase completa extinção destas funções populares, e podemos afirmar, que praticamente rompeu a cadeia do processo de aprendizado da viola. Raramente encontramos, nos dias atuais, filhos de violeiros tocando viola , e o que é pior, ainda encontramos bons violeiros que não tocam viola há vários anos, por não possuírem o instrumento, ou mesmo, por não terem mais motivação. Os violeiros que ainda existem, se sentem defasados do atual contexto sócio-cultural e, como conseqüência, deixam de dar valor aos seus "toques", que eles denominam de "toques antigos'; para tocarem peças atuais, inclusive, achando que estas peças atuais agradam mais ao ouvinte, do que a mazurca, a marchinha, o samba rural, o xote, a rancheirinha, o catira, a folia, etc., que eles interpretam tão bem.
Além de todos estes fatores negativos para a arte da viola, atualmente o violeiro além de não encontrar ambiente para a sua música, ainda enfrenta uma depreciação gratuita à sua arte. ~ comum encontrarmos pessoas usando o termo viola caipira e violeiro, no sentido depreciativo ou, até mesmo, no sentido pejorativo, como se a figura do violeiro fosse algo antiquado,
ou no dizer dos próprios violeiros, um traste velho sem mais serventia. Essa mentalidade distorcida é gratuita, pois, não existe razão de ser, a viola, além de ser o instrumento mais representativo do nosso folclore, não é um instrumento limitado, pelo contrário, é de um grande potencial, e de uma riqueza timbrica impressionante, as suas variadas afinações propiciam campos harmônicos extremamente originais. A nossa intenção é resgatar e promover o que se tem feito em termos de viola, e ampliar o seu espaço, ou seja, utilizá-la como instrumentosolista, assim como integrá-la em orquestras de câmera. No prefácio do livro de Manuel da Paixão Ribeiro "Nova Arte da Viola'; o autor escreve: "Viola... instrumento mais belo que o cravo".
Ainda há várias razões para o fato de a viola ter sido aos poucos ignorada. As afinações da viola são diferentes da afinação do violão, e a dificuldade em afiná-la é bem maior. - O "tocador" geralmente só conhece algumas posições de uma afinação qualquer, que são suficientes para ele se acompanhar, mas, em conseqüência, sua criatividade ao explorar a viola fica bastante limitada. - A falta de conhecimento das afinações e posições de cada afinação, devido à inexistência de literatura específica. - O violão, instrumento mais difundido, foi aos poucos sendo empregado nos ritmos que só usavam violas, ou seja, foi aos poucos tomando lugar da nossa viola, por ser instrumento mais abrangente e de fácil aquisição.