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Paulo Freire

 

 

 

Aventurar-se pelo sertão de Minas Gerais foi a forma que Paulo Freire encontrou para dar vazão à inspiração que o romance "Grande Sertão: Veredas , de Guimarães Rosa, lhe trouxe. Mais especificamente em Porto de Manga, no ano de 1978. Com o livro debaixo do braço, como se fosse a Bíblia, Paulo conheceu o violeiro Manoel Neto de Oliveira, morador do Urucuia, seu professor na viola.

A técnica de Paulo não se limitava a usar apenas o polegar e o dedo indicador, comum aos violeiros, e foi bem aceita pelo mestre. Paulo passou dois anos trabalhando na roça e tocando nos finais de tarde com "seo" Manoel, e ate hoje volta à região do Urucuia para pagar seus direitos autorais. Sempre é convidado a olhar a roça antes da conversa. "Para aprender a tocar viola é preciso a vivência da natureza, da roça, seu universo", explica. Em "Suíte da Lagartixa", por exemplo, gravada no disco Rio Abaixo, Vila Brasileira, Freire descreve três momentos da vida da lagartixa: "Com Fome", "Dando o Bote" e "Comendo". No primeiro, faz trêmulos em acordes tensos, lembrando 0 estômago roncando do bicho. No segundo, a lagartixa dá o bote em um andamento rápido recheado de ligaduras, que revelam a apreensão do instante que dura milésimos de segundos. No terceiro momento, o animal come feliz representado por um ritmo acelerado e acordes e melodia alegres, afinal, está de barriga cheia.

Paulo Freire também é guitarrista, formou o grupo Trem Fora Do Trilho, e estudou violão quando esteve na França. Ao se dedicar ao estudo da viola, o reconhecimento logo aconteceu, na forma de uma grande coincidência assinou com Júlio Medaglia a trilha sonora da minissérie da TV Globo "Grande Sertão: Veredas". Outra conquista importante foi o prêmio Sharp na categoria instrumental, ganho pelo disco Rio Abaixo - Viola Brasileira, em 1996. Usa uma viola fabricada por Vergílio Lima, especialmente desenvolvida para a afinação Rio Abaixo, com a qual gravou São Gonçalo (o santo protetor dos violeiros), próximo disco, ainda a ser lançado. Outro mestre importante da viola para Paulo Freire foi "seu" Zé Costa, morador do Jacu, o qual, entre outros ensinamentos, o levou a uma Folia de Reis. "Com ele aprendi que tocar viola é como estudar o alfabeto, com suas letras maiúsculas e minúsculas".