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Lendas e Causos

 

 

 

Causos

CAUSO DO PESCADOR

Chamava-se Tonhão Maverick porque um dia bebeu demais, andou a pé pela estrada e

"Foi colhido pela viatura, o que ocasionou escoriações generalizadas e fratura na tíbia esquerda, com luxação na bacia no indivíduo conhecido pela alcunha de Tonhão Pé-de-Cedro" - assim o relatório policial descreveu o acontecido.

A tal da viatura era um Ford Maverick, daí ...

Tonhão Maverick passou a andar de muletas, até que seus ossos fossem reformados. Vai daí que, não podendo trabalhar, resolveu distrair-se pescando.

Preparou a vara de lambari, isquinhas de massinhas e outras iguarias bem ao gosto do desditoso peixinho e pôs-se a perder o tempo que tinha de sobra na guarda da ponte de madeira.

O Pardo, de águas escuras, como não poderia ser de outra forma, senão seria chamado Rio Claro, descia manso, formando remoinhos minúsculos de quando em quando, silenciosos. Um galhinho boiando aqui, uma tranqueirinha descendo bailando, nuvenzitas de mosquititos parecendo a acompanhar o cortejo calado. Um caminhão atravessou pela ponte, levantando pó e barulho, o que não perturbou o pescador, que prosseguiu, envolto na poeira, seu afã. Logo a nuvem se desfez, voltando a visibilidade. Um cardume não visível de esfomeados lambaris anunciou sua chegada através da linha e do vibrar da ponta da varinha.

Foi quando, repentinamente, desandaram a correr em desabalada carreira rio abaixo, apavorados, mais para tiro de rojão que para nado de peixe. Passaram com tanta rapidez por debaixo da ponte que formou-se marola a ondear, estrondosa, na margem de cada um dos lados.

A retirada do cardume teve como propósito a visão de um tenaz perseguidor que vinha ao seu encontro fogueteado, boca e dentes à mostra, feroz: uma traíra tão grande, mas tão grande que Tonhão nem teve tempo para suas muletas. O gigantesco passou zunindo por sob a ponte, mas...

Mas o quê que ela não cabia no vau. Ficou entalada entre os dois pilares, agitando-se para se livrar, de tal maneira, que a ponte ruiu, e o pescador infortunado foi tomar banho de cabeça, com muletas, corote de pinga, chapéu de palha, canivete, vara, anzol, lanterna.

Hoje, teve alta na Santa Casa de Misericórdia um indivíduo portando muletas, afogado-desafogado, pasmado, obstinado mentiroso ( há quem afirme que não é mentiroso, é que com a queda e o quase afogamento, ficou matusquela ), conhecido pela mídia policial como Tonhão Traíra.

-Juro, se a linhada não tivesse rebentado... desse tamanho, ó, desse tamanho !

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Caboclo entrou na igreja, cabisbaixo, preocupado, direto para o confessionário:

Padre, cometi um pecado enorme !

Pecado capital, meu filho ?

Não, sô Padre, pelo tamanho, deve di sê um pecado estaduar !

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O cumpadre assistia, atento, seu programinha na televisão nova (hoje em dia, toda casa de caboclo, onde um é pouco e dois é bom tem sua antena parabólica), quando entrou o outro cumpadre:

Ô, cumpadre, boa-tarde, firme aí ?

No que veio a resposta:

Não, cumpadre, futebor !

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O cabra muito macho, queria provar sua ferocidade e masculinidade provocando os outros que estavam no bar:

Lá em minha terra todo mundo é macho ! bradou para todos ouvirem.

Ninguém lhe deu atenção, continuaram o que faziam, uns bebendo uma caipirinha, tomando uma cerveja e petiscando, outros jogando truco distraidamente.

Repetiu, ainda em mais alto tom, peito empinado, posudo, provocador:

Na minha terra, todo mundo é homem ! E aqui ?

Foi quando um caboclinho, acocorado a um canto, sem parar sua tarefa de picar o fumo, explicou, seguro:

Nessa terra aqui, ô forasteiro, tem metade que é homem, e metade que é mulher mesmo. E lhe garanto, todos somos muito felizes...

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A professora, naquela escola do bairro, na cidadezinha do interior, começou o ano-letivo apresentando-se a seus alunos e pedindo-lhes que , reciprocamente, também se apresentassem, dizendo seu próprio nome e a profissão de seus pais:

Meu pai é pedreiro, disse Mariazinha.

O meu nome é Pedro, professora, e meu pai é ferreiro.

Eu sou a Lia, professora, e meu pai é carteiro.

Levantou, por sua vez, o Juquinha:

Professora, essa semana, meu pai é promotor.

Que bom, disse a professora, temos aqui um causídico, que certamente traz muita importância à sociedade de nossa cidade, com seu saber e jurisprudência. E você, Juquinha, sabe qual é realmente a função dele ?

Falou o Juquinha, ainda de pé, com altivez:

Se ele faz esse negócio de jurisprudência eu não sei não, professora, mas sei que quando o patrão dele manda ele ir "prá suspensão", ele vai lá e conserta as molas do carro, quando é para ir "pros faróis", ele ajusta eles, quando o patrão diz "pros freios", ele obedece e arruma o breque e, ontem, eu ouvi o homem dizer "essa semana você é pro motor"; o meu pai foi lá e consertou o motor.

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Papo junino 1:

- Lá, na fazenda, a festança é tanta, que durante a gincana da quermesse, o desafio é chupar cana. Quem chupar mais cana, fizer montoeira de bagaço maior, ganha.

- Pois lá naonde eu moro, o desafio é muito maior: caboclo tem que assobiar e chupar cana ao mesmo tempo.

- E na minha, então, compadres. O desafio é muito maior, nem se compara em dificulidade: tem que assobiar, chupar cana e... comer farofa !

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Papo junino 2:

- Lá, na fazenda, a festança é tanta, tem pau-de sebo, sim: quem conseguir subir naquele pau escorreguento, leva a prenda.

- Pois lá naonde eu moro, o desafio é muito maior: caboclo tem que subir no pau de sebo, para ganhar, mesmo. Somente tem uma coisa: além do sebo, o pessoar passa no pau casca de banana nanica, quiabo e aquela gosma do couro do bagre e tudo com sabão.

- Sabem, compadres, na minha, então, nem se fala: além dessa gosmeira toda aí que o senhô falou, o caboclo tem que subir no pau... de cabeça para baixo !

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Papo junino 3:

- Pois eu lhes digo, compadres. Lá, na fazenda, a festança é tanta, que durante a gincana da quermesse, otro desafio é pular a fogueira sem se queimar.

- Pois lá naonde eu moro, o desafio é muito maior: caboclo tem que tirar as botina e andar sobre as brasa. E sem se queimar !

- E na minha, então, compadres. A dificulidade é muito maior, nem se compara: só que não tira a botina, não: tira as carça, mesmo... e senta !

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Papo junino 4:

- Lá, na fazenda, na festança, tem desafio bão, também: é ver quem consegue pegar a Mariana, a loirinha mais bonitinha da festa. Se pegar, pode dar um beijo nela.

- Pois lá naonde eu moro, o desafio é muito bão, também: só que a caboclinha é Tianinha, uma mulatinha que só vendo !

- E na minha, então, compadres. O desafio é igual, mas tem uma diferencinha: quem pegar, pode beijar e, na boca. Só que, no lugar da Mariana e da Tianinha, o caboclo tem que agarrar mesmo é ...um jacaré-de-papo-amarelo !

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Lendas

PACTO COM DIABO

Existia um sujeito no triângulo mineiro que tinha adoração pela viola, mas não conseguia aprender a tocar de jeito nenhum. Daí falaram pra ele que a única maneira de aprender a tocar viola , era fazer o tal pacto com o diabo. Depois de pensar bastante ele então resolveu ir encontrar com o "dito cujo", numa encruzilhada, à meia noite. Quando ele chegou lá começou a chamar pelo diabo, dizendo que tinha vindo ali pra aprender a tocar viola. Como nada acontecia, ele sentou-se no chão e ficou esperando. "Lá pras tantas", começou a aparecer animais com os filhotes trocados, veio a vaca com sete leitões, uma porca com sete cabritos, uma galinha com sete gatinhos, e , de repente começou a surgir cobras de todo o tamanho. Daí ele ficou com medo e gritou: - São Bento !!!!!! Na mesma hora o diabo com raiva gritou pra ele: - Vai viver molambento !!!! E tudo desapareceu. Conta-se que ele nunca aprendeu a tocar viola, e que quando colocava um terno bonito pra sair, em pouco tempo, este terno se transformava em molambo, passou o resto da sua vida vestido com trapos.

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SIMPATIA DA COBRA

Tem que encontrar um filhote de cobra coral venenosa, de preferência vermelha e preta, e com a mão direita segurá-la pela cabeça, deixando seu corpo passar por entre os dedos várias vezes . Com a ponta dos dedos da mão esquerda, alisar seu corpo bem devagarinho, soltando-a em seguida. Essa simpatia tem que ser feita com muito cuidadop pra não ser picado, e também pra não machucar a cobra que deve ser solta no mesmo lugar onde foi encontrada.

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SIMPATIA DO CEMITÉRIO

Tem que procurar saber se já morreu algum violeiro na região, se tiver procurar onde ele foi enterrado. Na Sexta -Feira Santa, à meia noite, entrar devagar no cemitério, no escuro, e na beira do túmulo do violeiro, ajoelhar, fechar os olhos, e esticar os braços, com os dedos bem abertos. A pessoa tem que rezar três Aves-Marias, e depois pedir pra alma do violeiro vir ensiná-lo a tocar viola. Contam os violeiros que quando a alma do violeiro chega, a pessoa sente um frio espinha. Ela pega nas duas mãos do aprendiz, esfrega uma na outra e "estrala" um por um, todos os dedos, indo embora em seguida numa ventania. Depois disso o aprendiz reza mais três Aves-Marias em sinal de agradecimento, e pode ir embora todo alegre, pois jé é um grande violeiro...