A vida repleta de fatos insólitos da instrumentista HELENA MEIRELLES tem inicio numa data que em si já denota um estigma: uma sexta-feira treze, no mês de agosto de 1924, na fazenda Jararaca, na antiga estrada boiadeira que, acompanhando o rio Pardo, ligava Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, ao Porto 15, embarcadouro de gado às margens do rio Paraná, na divisa com o Estado de São Paulo. ' Helena cresce em meio aos gritos dos peões e à poeira das constantes comitivas boiadeiras, procedentes do Pantanal e outras regiões do Mato Grosso antigo e bravio, numa época em que nem mesmo se cogitava em dividir o Estado. O avô materno, um paraguaio bondoso e hospitaleiro, dono da Jararaca, acolhia na fazenda muitos dos passantes, entre eles patrícios seus, alguns dos quais exímios violonistas e violeiros e à noite, em meio às intermináveis rodadas do tereré, o chimarrão frio de mato-grossenses e paraguaios, ouvia-se o tinir dos instrumentos na execução dos ritmos do Oeste, notadamente o rasqueado e a polca.
Encantada pelo som da música, a pequena Helena observa de longe, proibida que era de acercar-se desse mundo reservado apenas aos homens. "Mulher que aprender a tocar vai roçar nos homens e virar sem-vergonha", advertiam os pais, ao se aperceberem do fascínio dos instrumentos na guria, ameaçando 'cortar-lhe os dedos e dar-lhe uma surra de lavar o lombo com salmoura", caso insistisse. "Tocarei mesmo com os tocos", rebuçava nossa precoce rebelde. Para deleite de Helena, o tio Leôncio Meirelles e o irmão mais velho Álvaro Pereira, grandes violonistas, também se apraziam nas tórridas noites dedilhando seus pinhos. Os ouvidos atentos e os olhos sequiosos da menina gravavam os sons e as posições da afinação paraguaçú, empregada nos solos, e da clássica, utilizada nos acompanhamentos. Quando a família se dirigia para o campo ou para a roça, Helena retirava o violão que o irmão pendurava no telhado e se escondia no mandiocal, tocando sozinha. A um velho instrumento presenteado por um paraguaio adaptava linha de costura, que fingia serem cordas verdadeiras.
Corria o ano de 1932. Leôneio foi tomado de surpresa quando, num momento em que dedilhava o violão, a sobrinha pediu para acompanhá-lo. "Vá buscar o violão, mas se não conseguir você vai apanhar." Atônito, o tio não só viu Helena dominar com destreza o ritmo da polea que ele solava, como também observou , incrédulo, a menina afinar por si própria o violão na paraguaçu, passando a acompanhá-la quando ela se pôs a solar a mesma música que ele acabara de tocar. Desde então, muitos boiadeiros paravam na fazenda para ver a menina, que solava como gente grande e que aos nove anos animava bailes e festas na Jararaca e nas fazendas vizinhas, ao lado de Leôneio e do irmão Álvaro. Os anos passaram, Helena nunca foi à escola, casou-se aos 17 anos, três filhos, o marido tentou impedi-la de tocar e dançar: ela queria ser livre e o abandonou aos 21. Juntou-se a um paraguaio, que tocava violão e violino, bom companheiro de música e de copo, oito anos de conviveneia? mais dois filhos e~ nova separação. Então já mascava fumo e bebia. Sua índole rebelde não permiti que tolerasse as erítieas da família ao seu estilo de vida. Entregou os filhos a pais adotivos e passou a tocar em bares e viver em bordéis, onde com seu violão animava a farra da boiaderada. No processo, diversos amantes e novos filhos, que chegariam a um total de 11.
Um dia chegou ao bordel do Porto 15 um peão pantaneiro, domador de burros bravos. Segundo Helena, dormiu com ele Constantino. naquela noite e nele está ancorada há 3 5 anos, seu terceiro marido. Juntos seguiram para o Pantanal, onde trabalharam em retiros em dezenas de fazendas nas áreas mais remotas da região. Aquietou-se Helena, no acalanto da natureza pantaneira, sertão bruto onde à noite a onça pintada espreitava seu rancho. Mulher decidida, foi parteira - fez sozinha, inclusive, por onze vezes, os seus próprios partos - e benzedeira. Também foi lavadeira e cozinheira nas fazendas. Após 40 anos, deixou de mascar fumo e abandonou a bebida, mas jamais aposentou o violão, que tocava nas festas locais. Respeitando as características original da musica sertaneja, Almer segue buscando a simplicidade em seus trabalhos. Em instrumental dois, usou uma miniatura de violão com o bortão E afinado em B. O próximo disco com o nome provisório de caminhos me levam, foi gravado em sua casa na companhia do irmão Rodrigo Sáter e do norte americano Emil Silver. "é como se estivéssemos escrevendo a lápis na época do computador, o disco novo tem esse jeito", define Almir que utilizou uma viola especialmente fabricada pela Di Giorgio.
Após 32 anos desaparecida da família, que acreditava ter ela sido assassinada por um peão despeitado, na zona do Porto 15, HELENA MEIRELLES ressurge na pequena Piquerobí, cidade paulista próxima à divisa com Mato Grosso do Sul. Encontrada pela irmã Natália, a artista, vinda de Aquidauana, tentava chegar a São Paulo, onde, ouvira dizer, parte da família se estabelecera há três décadas. Doente e muito pobre, conservava ainda a destreza instrumental e grande parte do inesgotável e precioso repertório de pérolas do cancioneiro regionalista que levava valentes boiadeiros a "derramarem lágrimas de tristeza" ou "darem tiros de alegria". O que se sucedeu após alguns anos passou a ser registrado pela mídia cultural que, diferentemente dos produtores artísticos, viu o talento musical de Helena e passou a valorizá-lo. A artista enfrentou uma câmera de televisão e subiu ao palco de um teatro pela primeira vez em sua viajem beirando os 68 anos. Durante as quase sete décadas de total ostracismo, sua platéia havia sido os privilegiados habitantes da Jararaca e fazendas vizinhas, os peões da velha estrada boiadeira, os freqüentadores e operárias das zonas de meretrício e botecos de diversas cidadezinhas sul-matogrossenses e do lado paulista da divisa, além dos boiadeiros do Pantanal. .
O registro em CD, pela GRAVADORA ELDORADO, de parte rica e significativa do repertório executado por Helena ocorre num momento providencial e tem o valor que só o tempo sabe dar aos tesouros ocultos da natureza. Rústicos como a própria artista, os solos por ela realizados na viola caipira dão o tom visceral que impregna todo o seu trabalho e deixam entrever uma técnica própria cujo o segredo se encontra na endiabrada palheta de chifre de boi, feita às sextas-feiras santas, sob uma figueira, antes do sol nascer, para atrair boas vibrações: Foram as interpretações de Helena de números instrumentais como "Guaxo"(01 ), onde ela imita o ruído do vôo de um pássaro devorador de laranjas, e "Araponga"(07), em que reproduz o som do canto dessa ave, que atraíram para a artista o prêmio Spotlight Artist (Revelação) da revista Guitar Player, em novembro de 1993, e que, levaram sua notória palheta a ser incluída entre as 100 mais da publicação, em meio a nada mais nada menos que aquelas de idolatrados roqueiros, jazzistas é bluesmen, entre os quais Eric Clapton, Jeff Beck, George Benson, Steve Ray Vaughan, Keith Richards e John McLaughlin. A proficiência violística de Helena pode ainda ser confirmada em "Fiquei sozinha" (OS), "Flor dejasmim" (08), "Molequinho malcriado" ( 10) e "Fim de baile" ( 13 ).
Embora não execute esses instrumentos neste CD, HELENA MEIRELLES é também capaz de tocar com mestria o bandolim e a rebeca. Sola, entretanto, o violão, o que a torna, na realidade, uma multünstrumentista. Nesse instrumento, que pode tocar em diferentes afinações, nos oferece, em dois tipos de violão, o tradicional e o dinâmico - que, assim como a viola, possui som metálico, correspondente aos violões dobro dos bluesmen americanos, números como "Amélia" (02), a clássica "Chalana" (04) e "Merceditas" ( 11 ). Apesar da crise pulmonar de que foi acometida durante as gravações, decorrentes de sequelas de uma antiga tuberculose e de diversas pneumonias, resultantes da vida desregrada e dos incontáveis anos lavando roupas nas lagoas e rios do Pantanal, Helena logrou, não sem estóico esforço, brindar-nos com quatro faixas cantadas. A voz por vezes enfraquecida é no entanto compensada pelo , sentimento da interpretação e o canto serve de preâmbulo para os belos solos realizados na viola e nos dois violões - que o entremeiam. Temos "Me pega por favor" (03 ), "Quatro horas da madrugada" (06), "Cerro Corà" (09), onde apenas uma estrofe da canção em guarani corresponde mais a uma homenagem à tradição musical paraguaia, e a bela versão de Délio e Delinha em "Teu lencinho" ( 12).
Coroamos a coletânea com cinco histórias e depoimentos de HELENA ' MEIRELLES. Não obstante o seu analfabetismo, a artista possui o dom da oralidade , típico do sertanejo. O acentuado sotaque do matuto sul-matogrossense se mostra patente numa narrativa firme e saborosa, que valoriza nossa cultura regionalista. ' " De boiadas e boiadeiros" ( 14), "Fazenda Jararaca" ( 15), "De boiadeiros e bordéis" ( 16), "Parteira de si própria" ( 17) e "Saudades das comitivas" ( 18) não constituem meros "causos", mas passagens reais de uma vida aventurosa e repleta de lições ' para os corações e mentes preparados para recebê-las.